terça-feira, 5 de agosto de 2014

Carta ao meu obstetra

Querido Dr. Antônio Sérgio,

Senti a necessidade de compartilhar aqui meus sentimentos em relação ao meu parto. E te agradecer por ser esse profissional tão incrível e por ter me tratado com tanta humanidade da gestação ao parto.

Confesso que não foi fácil tomar uma decisão e entrar em seu consultório, mesmo com indicações.

Não tenho bons sentimentos em relação à classe médica. Sei da raridade de um médico que cuida e acompanha um processo natural, como o parto, e instintivo, como cuidar da cria.

Quando pensava em médico obstetra pensava, primeiro, no terrorismo do parto normal que levaria nossos filhos a terem seqüelas permanentes (isso se saíssem vivos!) se não fosse a salvadora cesariana. Pensava nas inúmeras desculpas esfarrapadas que poderiam usar para me impedir de parir...  Por outro lado, caso passasse na triagem e me permitissem parir, pensava na deturpação do parto: tricotomia, enema, bolsa estourada com agulha de crochê, anestesia, episiotomia, litotomia, kristeller, estribos e, finalmente, fórceps. Fora os incômodos toques do pré-natal.

Infelizmente, a minha visão do médico obstetra padrão é essa... e não acho que esteja errada. Se eu fosse religiosa diria que uma mulher que delega ao médico toda a responsabilidade e protagonismo do seu parto estaria acreditando mais no médico que em Deus. E o mesmo diria ao médico que admite que isto aconteça, ele pensa ser melhor que Deus.

O problema maior é que no consultório os médicos falam dos benefícios da cesárea e dos malefícios ou perigos do parto normal. Mas raramente o contrário... os benefícios do parto normal e os malefícios e riscos reais da cesariana. Isso acaba pesando pro lado da cesariana...

Dos pediatras não tenho melhores sentimentos... bebês nascendo e sendo levados imediatamente para longe da mãe, como se fossem propriedade do hospital, tomando os desnecessários leite nã e soro glicosado antes mesmo de mamarem o alentador leite materno no aconchego da pele da mãe. Dificultam, dessa forma, a pega do peito e depois ainda se justificam, absurdamente, quando o bebê não mama direito, que a mãe não é capaz de amamentar, que o leite é fraco, que o leite não é suficiente, dissuadindo mães de fazerem o que é melhor para os filhos. E me revolta saber que com o apoio de um bom profissional até mães adotivas amamentam.

Diante disso, confesso que durante a minha gravidez não tinha a intenção de pisar em um consultório médico. Eu deixaria acontecer...  

Somente por pressão da família não tive um parto domiciliar desassistido. Marquei a consulta e fuide pergunta em pergunta, sempre desconfiada... no início bastante constrangida... por estar ali mais pra pegar guias de exames e sem confiar. Mas no fim, inesperadamente, mais tranqüila e convencida de que meu parto normal poderia sim acontecer em Maceió. Seria possível parir com a presença do pai do meu filho, coisa que não permitiram no meu primeiro parto, já que a sala de parto estava tão cheia de estudantes que meu marido não cabia e, bem... eu era o objeto e meu marido... ah... o hospital não tinha nenhum interesse nele.

Enfim... fui pro hospital disposta a sair correndo caso me visse em vias de ir pra uma cesariana desnecessária.

Só tenho realmente a agradecer Dr. Antônio, pois não precisei sair correndo.

Na verdade escrevo para tentar expressar o meu mais profundo agradecimento pelo maravilhoso parto normal do meu segundo filho, Lucas, embora,
- meu filhote estivesse com uma circular de cordão;
- meu bebê não estivesse encaixado
- embora pudesse inventar ainda mais alguma desculpa pra me levar pra mesa de cirurgia.

Gostaria de agradecer por ter acompanhado o meu pré-natal com tanto respeito, sem toques no pré natal e com apenas o toque de admissão, no parto. Obrigada por ter acompanhado o meu parto sem enema, tricotomia, estribos, sem romper a minha bolsa, sem episiotomia, sem puxos dirigidos. Obrigada por me oferecer água e algo pra comer (que não deu tempo, mas valeu a intenção). Obrigada por inclinar a cama pra mim, quando pedi, e também por me lembrar que eu não deveria empurrar a minha barriga (eu mesma empurrava, em memória do meu primeiro parto). Obrigada por permitir o acesso ao meu marido, respeitando o momento do rompimento da bolsa e permitindo que meu filhote se encaixasse na hora dele. O tratamento e a forma como fui recebida e conduzida me tranqüilizaram de tal forma que pude me permitir simplesmente esperar, sem tensão. Agradeço por ter respeitado a minha fisiologia e a minha dor e por me dar segurança de que acompanharia meu parto sem intervenções. Agradeço as palavras mansas me pedindo pra respirar com calma e do jeito certo, que isso faria bem ao meu bebê. Agradeço por me lembrar de descansar a cada contração. Agradeço por me acalmar ao dizer pra enfermeira que com a dor que eu estava sentindo era normal que a pressão estivesse alta. Agradeço por me oferecer a banheira de hidromassagem, isso me deixou segura de que tinha liberdade para escolher e decidir o que era melhor pra mim naquele momento. Agradeço a delicadeza com que conduziu o parto e acalmou o  meu marido. Agradeço a massagem e a bolsa de água quente que foi o que realmente aliviou as minhas dores, tornando o trabalho de parto praticamente indolor. E agradeço por ter acompanhado o parto com segurança, com acompanhamento de batimentos cardíacos.
Agradeço muito por ter sido delicado comigo no meu momento de fragilidade, por garantir meu parto normal respeitoso do início ao fim. Por ser um médico digno de ser chamado de médico humanizado.

Agradeço, principalmente, por permitir que meu filho mamasse antes mesmo de cortar o cordão umbilical, o que contribuiu, certamente, para que ele mamasse tão direitinho, sem tanta complicação como foi com meu primeiro filho, que só queria dormir, após ser afastado de mim e de provavelmente tomar nã e soro glicosado.

Você diria “não fiz mais que a minha obrigação”... mas eu digo que não fez menos e com um grande diferencial, com respeito à fisiologia, ética profissional e, principalmente, com humanização.

Não sei como teria sido se meu trabalho de parto fosse mais longo, mas acredito que seria tão bem conduzido como foi com o meu rápido trabalho de parto.

Em tão poucas consultas confesso que sinto um respeito enorme pelo profissional que é.
Estará sempre em minhas lembranças com muito carinho. Será sempre o personagem principal na história do maravilhoso nascimento do Lucas que sempre contarei “Dr. Antônio Sérgio Lima de Souza, ético, profissional, humano, que me permitiu ser protagonista do meu parto e ser respeitada em todo esse processo”.

Muito obrigada, sempre.

Milena Caramori.