terça-feira, 5 de março de 2019

Relato de parto normal (cheio de intervenções desnecessárias) ou... o que veio antes do meu parto humanizado em Maceió

Pari em hospital escola, Hospital Sorocabana, Botucatu, 2004. A violência já começou no pré-natal, quando a médica fazia o toque desnecessário e, em seguida um ou dois residentes. Cheguei no Hospital Sorocabana em Botucatu às 7 horas da manhã, com contrações ritmadas de 5 em 5 minutos. Fiquei esperando de pé, no corredor gelado e vazio do hospital, onde o único apoio que eu tinha era o bebedouro e meu marido. Eu gemia alto e as dores aumentaram consideravelmente por causa do frio e por não ter nada pra me apoiar, que me deixasse em uma posição confortável. Não sei quanto tempo fiquei ali. Uma enfermeira veio, me olhou, e me mandou embora pra casa sem nem mesmo fazer a auscuta fetal pra ver se os BCFs do meu filho estavam ok. Ela me falou “iiiih, vai pra casa, porque isso aí ainda vai piorar muito! Esse bebê só vai nascer amanhã, e olhe lá!”. Me liberou pra comer o que quisesse, graças a deus! Fui pra casa, sem vontade de voltar pro hospital, mas voltei logo em seguida. A enfermeira não gostou, me chamou de fresca e que se eu estava gemendo alto daquele jeito naquela hora, imagine no dia seguinte! Falou que era pra eu esperar (ali, naquele corredor gelado), porque a médica estava tomando café da manhã.

Esperei, não sei quanto tempo, não deve ter sido muito, mas parecia uma eternidade. Meu marido estava comigo, então me agarrei nele. Precisava me apoiar e ele foi meu apoio.

Algum tempo depois chegou um residente. Me mandou entrar numa salinha. Meu marido quis entrar, ele falou que não era pra entrar, que não era permitido. Me fez subir naquelas escadinhas (pra mim dar um passo era difícil) e deitar naquela maca fininha. Entre uma contração e outra eu ainda perguntei: “e precisa mesmo fazer isso?” Ele só disse que sim.  Pensei que fosse cair. Eu, que desde o quinto mês de gestação não conseguia me deitar de costas, só de lado, fui obrigada a me deitar de costas em pleno trabalho de parto! Me deitei. O médico fez o toque. A médica, professora chegou com um batalhão de residentes. Segundo meu marido eram mais de 10 pessoas. Acredito que ela aproveitou que estavam todos saindo do café da manhã pra dar a aula dela. O residente falou que estava com 9 cm de dilatação. A médica fez o toque, mandou outro residente fazer o toque. Sim, certo, 9 cm... “vamos estourar a bolsa”. Eu gritei que não era pra estourar a bolsa (não tinha como falar de outra forma). Ela me perguntou: “e por quê não?” E estourou. Eu sabia que estourar a bolsa poderia causar um prolapso de cordão... mas ali naquele momento, eu não tinha forças pra argumentar... meu marido, meu defensor, estava do lado de fora assustado.

Me mandaram levantar e ir pra sala de cirurgia. Me desesperei “não, não, eu quero parto normal!”. Falaram que era lá que eu ia parir. Precisava ir correndo porque já ia nascer. Precisei me levantar da maca, descer as escadinhas e ir andando a passos lentos. Antes disso me fizeram tirar o vestido e colocar aquele aventalzinho do hospital, que começou a cair do meu ombro (pois eu não consegui amarrar) e o avental escorregou pros meus braços... eu semi nua toda ensangüentada andando pelo corredor, colocava as mãos por baixo, sentia que meu filho estava nascendo, travava nas contrações com medo dele cair. E meu marido assustado me viu e foi me ajudar. O impediram. Ele começou a brigar, a bater boca, queria entrar comigo. Foi impedido. Eu acenei com a mão pra ele ficar quieto. Fiquei com medo do que poderiam fazer comigo. Continuei andando e segurando com as mãos, de medo do meu filho nascer e cair no chão.

Entrei na sala de cirurgia.  Subi novamente nas escadinhas, me deitei na maca... muita dor pra deitar. Pediram que eu abaixasse a bunda pra encaixar minhas pernas nos estribos.  Assim fiz. Quando me deitei senti que o meu filho que já estava nascendo parou... perdi a força das contrações. Começaram a me mandar fazer força. Eu não tive vontade. A enfermeira falou “você não queria parto normal? Se quiser parto normal faça força, porque se não nascer em 15 minutos, vai ser cesárea. Segura nesses ferros e faça muita força!” Eu segurei nos ferros e fiz muita força... mas sentia que não ia, não dava. As contrações tinham ficado fracas, aquela posição não ajudava, era horrível, doloroso... A médica ia descrevendo meu quadro pros estudantes e ia falando dos procedimentos. Deu ordem pra alguem subir na minha barriga e empurrar e avisou que ia fazer um “cortezinho” pra “ajudar” a sair. Os residentes todos olhando, conversando. Avisou que ia colocar o fórceps, mas depois desistiu. Já estava nascendo. Ela queria demonstrar o “passo a passo” pros residentes. Me pergunto aqui se os residentes aprenderam que todos aqueles procedimentos tem risco. Que são dolorosos. Que são desnecessários. Me pergunto aqui se  esses estudantes são capazes de fazer questionamentos sobre os procedimentos que aprenderam. Me pergunto aqui se aqueles residentes entendem que a mulher tem direito sobre o próprio corpo e sobre o que será feito nele. Me pergunto aqui se são capazes de entender a importância que o nascimento de um filho tem pra mulher, pro pai, pra família e pra vida toda. Eu neguei a ruptura artificial da bolsa, mas me entreguei a todo o restante pensando na frase clássica: “se o estupro é inevitável, relaxa e goza”. Um residente fez os pontos da episiotomia, errados. A professora mandou desfazer e refazer. Eu sentia a agulha espetando e me costurando, sem anestesia. Ela deu ordem pra fazer o ponto do marido.

Meu filho nasceu e eu não o vi. Quis me levantar e ir atrás dele, me deram ordem pra ficar quieta, porque estava com hemorragia. Eu só queria chorar, aquele não é o parto da lagoa azul, como tinha imaginado. Tinham campos (aqueles panos) na minha frente. Eu não o vi, mas ouvi o choro desesperado dele em uma pia, enquanto uma mulher fazia os procedimentos também desnecessários e dolorosos com ele. Eu queria chorar também. Me mostraram ele já de roupinha, não me deixaram sequer pegá-lo no meu colo e sentir seu cheiro. A mulher me deu ordem: “beija ele, mãe, nem parece que ta feliz!” Nem me deixaram olhá-lo direito. Eu pedi pra ficar com ele, a mulher negou. Falou que era pra eu descansar, dormir porque eu nunca mais ia dormir na vida. Avisou que só em duas horas eu poderia vê-lo. Eu queria ele comigo, pedi meu marido... finalmente deixaram ele entrar. Ele me deu um beijo, falou que eu era muito forte, que nosso filho era lindo e que ia atrás dele. Ele ficou olhando o Pedro pelo vidro do berçário.

Meu momento, o momento do meu marido, o momento do meu filho... foi uma aula de obstetrícia pra se ensinar o que jamais deve ser feito a uma família que está nascendo.

O ponto do marido destruiu a minha vida conjugal. Passei meses sentindo dor ao fazer sexo. Meu marido pensava que eu o traía. Rejeitei meu filho no primeiro instante, me deram ele já alimentado com leite artificial, o que dificultou imensamente a pega no peito, ele só queria dormir. Ficavam pesando ele várias vezes ao dia, levavam ele. Eu queria saber o que estavam fazendo, queria ir junto. Não deixavam.  Me deram ordem pra amamentá-lo de 1 em 1 hora, porque senão ele teria que ser picado de novo pra medir a glicose e tomar soro glicosado. Não íamos sair do hospital.  Assim fiz semanas a fio, mesmo depois de ir pra casa, de medo de voltar pro hospital.


Poderia ter sido diferente se eu tivesse informação, se as pessoas conversassem sobre parto e nascimento, se eu soubesse o que me esperava. Mas não posso mais lamentar o parto e o nascimento do Pedro, que foi a porta pras minhas buscas pelo ativismo pela humanização do parto e nascimento. Foi através da minha experiência de parto que nunca mais parei de me informar, de estudar... Depois desse parto tive duas experiências muito diferentes... Um parto humanizado hospitalar e depois um parto domiciliar.

O que eu posso dizer a partir das minhas experiências é: mulheres, se informem. Saibam que o parto normal pode ser lindo, humanizado, algo que seja lembrado com saudade. Pra isso é importante saber o que te espera, o que pode ser evitado, o que pode ser planejado.